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Ambev financia bares, Natura revendedoras – e indústria vira ‘banco’ de distribuidor

Varejo180

3 de agosto de 2021

Crédito: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Em meio ao crescimento das fintechs, grandes empresas enxergaram também uma oportunidade de criar suas próprias companhias de pagamento. A lista de gigantes que lançaram iniciativas recentemente inclui companhias como Natura, Ambev, Souza Cruz, além de dois grandes nomes do segmento de alimentos e farmacêutico que devem se juntar ao grupo em breve. Em comum, essas empresas têm uma grande e pulverizada rede de distribuição de vendedores pelo Brasil e decidiram ter maquininhas que vão além de simplesmente passar cartões: agregam uma oferta mais ampla de serviços financeiros, como empréstimos e incentivos ao vendedor, como o cashback. Muitas dessas estratégias são feitas sem um banco por trás.

“A indústria está em uma curva de aprendizado para entrar no mundo financeiro”, afirma o CEO e cofundador da DeliveryPay, Marcio Martini, empresa que desenvolve a plataforma de pagamentos e produtos financeiros para grandes companhias.

Para o executivo, com décadas de experiência no mercado de entregas, esta é uma tendência sem volta. Ele cita uma frase famosa do empresário americano Bill Gates, de que as pessoas e empresas querem os serviços financeiros, mas não necessariamente precisam de bancos. E é o que as maquininhas oferecem, fazendo de pagamentos a programas de fidelidade, antecipação de recebível e controle de estoques e vendas.

Plataforma da Natura foi lançada na pandemia

Em plena pandemia, a Natura começou a operar uma nova plataforma de serviços financeiros para suas consultoras no Brasil, chamada de “Natura Pay”. A empresa afirma que o produto tem o potencial de atender as mais de 1,2 milhão de consultoras em todo o país. Atualmente cerca de 220 mil têm acesso. O foco inicial são as revendedoras brasileiras da Natura, mas posteriormente a solução ampliará sua operação para atender as representantes Avon no Brasil. “Planejamos também atender nossa rede nos países de América Hispânica em que temos atuação”, diz a companhia.

A Natura Pay é um sistema de pagamento próprio e, segundo a companhia, visa melhorar o fluxo de caixa das consultoras ao ampliar as formas de pagamento para seus clientes. Entre as ferramentas oferecidas está uma conta digital, em que é possível emitir boletos ou links para pagamentos instantâneos, como o PIX, além de controlar as vendas realizadas por maquininhas de cartão ou por depósito. Pela mesma conta, a consultora pode também antecipar recebíveis, fazer saques em caixas eletrônicos e realizar compras.

O modelo de negócios da Natura também prevê crédito para as consultoras. Além disso, a companhia afirma que o novo modelo auxilia na “desintermediação bancária, ofertando outros instrumentos de crédito, pagamento e recebimento, aproveitando toda a digitalização dos pagamentos instantâneos”.

Para o futuro, a Natura prevê que a plataforma “supra a jornada das consultoras em todas as suas etapas financeiras, desde a compra de produtos, até alavancar ferramentas de venda e recebimento, além da educação financeira que será sempre a alavanca fundamental no negócio”.

Fintech da Ambev quer ajudar na gestão dos bares

Criada no parque de inovação da Ambev, a Donus, uma fintech que leva a maquininha e uma conta digital para mais de 80 mil bares clientes da empresa de bebidas, já testa o oferecimento de crédito. A proposta da Donus é ser uma plataforma de gestão financeira do estabelecimento. Segundo o CEO da fintech, Mauro Bizatto, a empresa ouviu – e muito – os donos de bares na construção de seu aplicativo. As conversas determinaram, por exemplo, o prazo e o tipo de crédito que seria oferecido.

Bizatto disse que esse segundo passo é possível, pois a Ambev conhece bem os dados desses bares e, com essas informações, consegue fazer propostas de acordo com os perfis de cada um. “Conseguimos saber muito do relacionamento do cliente com a Ambev. Histórico de relacionamento e de compras também. Assim, somos competitivos em taxa. Mais importante que isso, no tamanho da linha de crédito que a gente dá”, afirma.

Ele diz que a empresa consegue oferecer valores de empréstimo maiores do que grandes bancos, usando recursos próprios.

“Já é realidade e uma tendência que ainda vai se aprofundar: varejistas, principalmente os maiores e melhor estruturados desenvolverem suas soluções e até criaram empresas de pagamento”, afirma o consultor Boanerges Ramos Freire, presidente da Boanerges & Cia Consultoria.

O pagamento é essencial na atividade das empresas e, mais importante, o consultor destaca que as companhias descobriram que ele pode ser explorado como um negócio que permite conhecer melhor o cliente, seus hábitos e comportamento.

Segundo o consultor, os serviços de pagamentos não são um negócio muito rentável em si, principalmente com avanço da ampla concorrência. Mas serve como porta de entrada e oportunidade de relacionamento contínuo com o cliente, diz. Entre estas oportunidades, o crédito é a que oferece a chance de maior rentabilidade. “Mas, claro, envolve riscos e precisa de uma competência não trivial na concessão e gestão, que pode ser contratada, desenvolvida ou envolver compartilhamento de riscos.” Mas com a empresa sabendo dos fluxos de venda dos seus
clientes, o risco tende a ser baixo, completa o consultor.

Revendedores também se mexem na mesma direção

Se por um lado grandes companhias podem se valer do conhecimento de sua grande rede de revendedores para mitigar o risco de crédito e oferecê-lo com mais chance de retorno, revendedores de outros setores começam a se movimentar para, juntos, conseguirem melhores condições de crédito do que separados. É o caso do Anamaco Bank, uma fintech lançada há menos de um mês e que tem por trás a Associação Nacional dos Comerciantes de Material de Construção (Anamaco).

Por enquanto, a instituição só pode oferecer contas de pagamento para os estabelecimentos associados. “Estamos na fase inicial. Vamos abrir conta para os lojistas e para os empregados e assim, possibilitar a folha de pagamento, depois, aos poucos, teremos todo o portfólio que um banco comercial tem: crédito e cartão, por exemplo”, diz o presidente da Anamaco Geraldo Defalco.

A intenção é buscar condições especiais, tanto em taxas quanto em tarifas para empréstimos e investimentos no setor, que é carente de crédito.

Fontes: Estadão